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KISMET¹

destino de joão batista

Passagem curiosa que sempre me esqueço de mencionar nos posts: quando soube que íamos fazer gravações em um barco, adivinhem que filme me veio à cabeça? “Um Estranho No Ninho” um dos meus preferidos. Quando pisei naquele barco lembrei imediatamente do R.P. McMurphy.

Aliás, este curta é cheio de simbologias, analogias, códigos e referências pra mim, Roger e Otoniel sabem disso, a quantidade de acontecimentos peculiares que aconteceram na minha vida momentos antes das primeiras conexões e ligações do diretor, até hoje me surpreendem. Mas falemos das minhas impressões da pré-estreia.

Quando perguntam pelas ruas como foi a pré-estreia, como foi fazer cinema, como foi se ver em proporções gigantescas em uma tela? Minha única resposta é: Não foi fácil, mas é uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Respondo também que do filme em si lembro pouco, e me cobro por isso, é claro que aproveitei aos extremos cada segundo do filme sentado naquela poltrona, assistindo um trabalho e que fui apenas mais um colaborador, operário deste grande, bem executado e agora INTERNACIONAL projeto. Cada tom de vermelho, cada take, cada detalhe, cada trilha, cada som, cada insert, cada detalhe das cenas me levavam para os dias das filmagens em julho de 2011, e muito antes disso também, levavam-me para tempos passados de recordações boas e ruins, tanto para mim quanto para João Batista.

Uma das coisas que me deixou extremamente feliz na pré-estreia foi reencontrar os companheiros. Foi um privilégio e honra trabalhar lado a lado com vocês durante o tempo das filmagens. O GOZO FOI GERAL! Cada sorriso de satisfação do dever cumprido, cada aperto de mão e cada abraço vigoroso era a certeza de respeito e admiração, por vocês: Muito Obrigado!!!

O dia da pré-estreia foi diferente pra mim, claro que sim, foi a pré-estreia do meu primeiro filme, isso pra mim é de fato importantíssimo. 08-02-2012, o clima era outro neste dia pra mim, nervosismo, ansiedade. Como a audiência iria reagir quando terminasse o filme? – Queria ir totalmente diferente do João Batista –. Já em frente do cinema rever alguns amigos da produção já era indício de uma noite impar pra mim. Ao entrar e subir àquela rampa a emoção já passava pelo meu corpo como corrente elétrica em água. Cheguei, e a sala estava lotada.

O que me deixou muito feliz mesmo é que algumas pessoas não chegaram a reconhecer-me na minha chegada, fato que ocorrera após o termino do filme:

Senhora- Olá você sabe onde está o rapaz que fez o João Batista? Quero parabeniza-lo!

Leoci- Como vai senhora, tudo bem? Este rapaz sou eu!

Senhora- Meu Deus o que fizeram com você, não é verdade, é você mesmo? Meus p-a-r-a-b-é-n-s jovenzinho. P-a-r-a-b-é-n-s! [silabicamente desta maneira].

Fiquei muito comovido e emocionado com resultado do filme, “anestesiado”, “morfinado”, minha família estava presente, minha mulher companheira de profissão, e parceiros de trabalho, foi um dia inesquecível pra mim, nunca pensei que algum dia iria à uma pré-estreia, ainda mais sendo esta de um filme em que tive o deleite o bem-estar de trabalhar. Ao final as pessoas aplaudiram, de pé o filme, evento constante em um teatro, mas no cinema foi minha primeira vez, achei legal, nosso trabalho foi aceito e admirado. Saindo da sessão vi dois cartazes do filme, fiquei louco, tinha que ter eles, fui até Camila e os pedi deliberadamente.

Revelarei um dos métodos para construção da persona de João Batista. Ainda no trabalho de mesa com o Roger, nunca esqueci uma coisa que ele disse após o término de um ensaio: “Leo no cinema menos e mais”. Meu trabalho diário fora e dentro do set, sempre partia desta frase repetida exaustivamente muitas e muitas, várias e várias vezes durante todo o período de filmagens. Minha experiência teatral foi primordial para a construção de JB, a seriedade que eu tratava da existência do personagem, nuances jeitos e trejeitos corporais, voz. Mas a minha expansividade em contrapartida me atrapalhava muito, então tive que achar o tom adequado, as nuances precisas, os olhares exatos pro João Batista que o meu diretor queria e que eu quisesse também.

É claro que no começo foi penoso e trabalhoso, com esquecer o episódio clássico: “O que foi que tu vistes João Batista?” “O DIAAAAAAAAAAAAAABO”.

Este episódio você encontra nas melhores lojas do ramo na versão estendida ou ainda na Director’s cut Version.

É claro que nas horas dos agradecimentos não quero esquecer ninguém, mas alguns nomes precisam ser lembrados, minha permanente gratidão à Roger Elarrat um diretor com sensibilidade, serenidade, sensatez, firme e talentoso, sempre me deixou completamente a vontade com total liberdade pra trabalhar e montar meu personagem. Uma das coisas mais importantes em grandes cineastas é querer trabalhar com o seu ator, junto dele e o Roger sempre demostrou isso pra mim desde o começo sempre me tratando com respeito e profissionalismo. Tenho grande respeito e admiração por ti. À Camila Kzan Inteligente, talentosa, habilidosa gosto muito de ti. Mesmo com problemas enormes pra resolver, você nunca consegue perceber algum sinal de fraqueza ou de desespero ou falta de esperança no semblante de Camila. Aplicada, centrada, competente, focada e sábia. Além disso, transmite muita tranquilidade. Considero-te! À Rafaela Fontoura que é uma mulher que trabalha, mulher de vanguarda, quem a olha de longe pode até se assustar com as “tatto cadeia“, mas ela é um amor, calma delicada e bastante focada, ajuizada e precisa nas suas ações, o Jambeiro estava repleto de mulheres fortes e intensas. É impossível você não se dar bem com a Rafaela. “She’s a Straight Edge and Old School!!!” À Teo Mesquita, nos damos bem, nossas conversas sobre finanças eram muito boas, pow eu não te vi na pré-estreia onde tu estavas? Parece que o Teo tinha tudo de cabeça, tudo de produção ela sabia, quantos têm quantos estão faltando, onde vamos comer quem vai levar quem vai trazer ele sabia de tudo, parece o oráculo. Sempre muito cuidadoso e prevenido. À Otoniel Oliveira, uma palavra: genial. Gosto muito do Otoniel, tenho admiração e considerações muito grandes por ele e pelo seu talento nato. É Incrível a precisão e firmeza dos teus traços a riqueza de detalhes é algo estrondoso a disposição, o jeito hábil, a aptidão, a versatilidade, a propensão para ser um artista é algo que salta em ti. Sempre muito inteligente, sempre correlacionando os fatos do hoje com os de outrora. Uma simples conversa com Otoniel é certeza de aprendizado, conhecimento e tirocínio. Além do carisma que carregas. À Dario Jaime, sempre muito atencioso e cortês, batalhador, forte, não pise no calo dele, e não vem com frescura não, se não ele te come vivo. Aprendi muito contigo. À Boris Knez, sempre vou me lembrar do Boris como “o cara”, ele é muito bom, poucos tiveram a sorte e o prazer de trabalhar com ele e com sua equipe. O Boris é o tipo de pessoa que você tem que ser ele por algum tempo, ainda faço o Boris um dia no cinema. À Célio Filho, sensacional, sabe de tudo pro cinema, não cheguei a ver o Célio titubeando ele ia lá é fazia com habilidade e engenhosidade. Gosto muito da tua franqueza e sinceridade.

É impossível não ficar empolgado, feliz, orgulhoso, deixar de mencionar que o curta-metragem está no Festival de Cannes, o maior festival de cinema do mundo, o mais importante, aqueles louros, são nossos. Desde a primeira lida no roteiro, na primeira semana, eu desconfiava que as proporções e repercussões do Jambeiro seriam grandiosas, e eu acreditei nisso com todas as minhas forças, SEMPRE. Era uma coisa que nunca saia dos meus pensamentos despudorados. Eu sabia que o jambeiro teria kismet nobre. Kismet Imponente. Kismet Majestoso.

Tudo isto foi pra dizer que sinto muitas saudades de vocês, o meu mais um e incansável: MUITO OBRIGADO! Se cuidem. Te vejo em outra vida!

Kalcho²

Uma vez houve um cara como você que trabalhou aqui no cemitério. Ele era um motorista de caminhão limpa fossa antes de vir pra cá. Seu nome era Kalcho. Ele foi demitido pela gerência de departamentos de dejetos por má conduta. O cara era casado, mas a esposa era uma cadela no cio e ele era super ciumento. Um dia ELA sai pra comer geleia com as amigas, Kalcho a segue secretamente. Ela não ia encontrar com suas amigas, e sim com um pasteleiro vitaminado como chocolate pode apostar, ela fez tudo com ele, serviço completo! O pasteleiro mora no subsolo de um prédio de apartamentos, Kalcho dirige o caminhão limpa-fossa, enfia o tubo pela janela, e descarrega a carga toda do tanque, TRÊS toneladas de fezes. Kalcho vai embora, sem merda! A polícia segue a trilha fedorenta e o prende. O relatório da investigação aponta DUAS toneladas e meia de fezes e mais meia tonelada pulverizada sobre paredes e móveis. O julgamento começa. Chamam o pasteleiro vitaminado como testemunha, o promotor pergunta a ele:

O Promotor: – “Estava indo descansar após o trabalho, abre a porta e… MERDA! Não sentiu náuseas? Não vomitou?”.

O promotor perceba esta tentando estabelecer os danos morais, e não só os materiais.

O Pasteleiro – “Não, nada disso”.

O Promotor: – Como foi?

O Pasteleiro: – Simples assim camarada promotor. Se fosse uma merda ou duas eu teria vomitado, mas DUAS toneladas e MEIO não te causam náusea.

Moral da historia: Quanto maior a merda, menor o dano. O Dano moral, isto é não o material.

¹. Kismet – Palavra de origem turca significado: Destino.

². Kalcho – Paródia Russa.

³. O filme tem 21 minutos.

 

Leoci Medeiros – Ator. 07 a 17 de Abril de 2012.


Cannes

Reforços

Eu tenho medo de chegar na ilha de edição sem um bom material de segunda unidade. Desde que trabalhava como editor eu sofria a constante dificuldade de montar cenas com material escasso, sem planos de detalhes, planos de situação, de preenchimento,  de passagem de tempo ou de transição. É claro que certas seqüências são pensadas para que montem com poucos, ou mesmo um único plano. Mas são momentos específicos e diferenciados dentro do todo.  Na maioria das vezes, precisamos encadear planos diferentes, imprimir ritmo através deles, destacar ou ocultar algo com a dinâmica entre eles. Mesmo que certas cenas se montem independentemente dessas imagens de cobertura, o filme como um todo quase sempre vai precisar de takes de segunda unidade em alguns pontos vitais para estar bem amarrado.

Tive isso em mente em todos os projetos que dirigi.

Mas aí é que tá. Falar é fácil. Em uma escala maior do que estamos acostumados aqui, é tranqüilo ter equipes inteiras para o trabalho de segunda unidade em paralelo às filmagens principais. Ou muitas vezes depois do filme montado, o diretor e o editor analisam o que ficou faltando e se mobiliza uma nova equipe para rodar precisamente o que necessitam para completar o filme. Lembro-me de ficar assombrado quando soube que “O Senhor dos Anéis” tinha 6 unidades paralelas filmando ao mesmo tempo na Nova Zelândia, além do orçamento gordo prever refilmagens durante a pós-produção.

Não é o nosso caso. Mas aí eu sempre achei que com pouco dinheiro e tempo mínimo, bastava me focar em organização total que tudo daria certo sempre.

Nem sempre, né?

Quando rodei o “Chupa-chupa” na ilha de Colares, decidi fazer os takes de segunda unidade todos os dias, no início da noite. Por volta de 20h, encerrávamos os planos de cobertura e seguíamos paras as filmagens previstas no roteiro. De dia dormíamos e planejávamos a próxima noite sempre no esquema: segunda unidade/unidade principal. E como era um documentário, não tive grandes problemas depois na edição.

O curta-metragem “Visagem!” me possibilitou uma outra estratégia por ser em stop-motion. Eu rodava a segunda unidade de manhã com um segundo fotógrafo. Depois do almoço eu seguia para filmagens de novas cenas do roteiro até a noite. Na madrugada, eu montava as cenas do dia e visualizava o que precisaria de segunda unidade. Na manhã seguinte gravava as demandas das observações da madrugada anterior. De tarde o fotografo principal apenas checava tudo e seguíamos adiante. Um ciclo de 6 meses até terminar tudo.

Até aí, tudo bem. Mas quando encarei uma produção 100% ficcional, nada de estúdio ou longos períodos de filmagens, eu tive um desafio completamente diferente, como na minissérie “Miguel Miguel”. Para resumir, rodei 6 episódios com orçamento de 1, e com um cronograma que em tese seria possível  filmarmos apenas 3 episódios. E a segunda unidade, como fica?

Fiz toda a segunda unidade em apenas um dia, no meio das 3 semanas de gravação. Foi um dia sem nenhuma cena completa, apenas personagens entrando e saindo da casa com vários figurinos, sol, chuva, fachada, detalhes de objetos e elementos de passagem do tempo. Saí dali feliz e satisfeito, mas nem tudo montou. Durante a edição eu senti falta de mais algumas coisas e acabei chorando nos ombros do meu produtor para fazer mais algumas imagens pelas ruas de Belém, 6 meses depois de encerradas as filmagens principais.

E agora, no “Jambeiro do Diabo” eu sabia que teria grandes problemas novamente. É um curta que tem planos-seqüência em todos os diálogos entre o casal protagonista, mas por outro lado, eles estão constantemente se deslocando, chegando e partindo apressados e que possivelmente me trariam dificuldade em fazer o público absorver todos os lugares e passagens de tempo. Pior que isso, em paralelo à história do curta, ainda tem várias seqüências de alucinações com efeitos especiais, elementos gore e vestígios de informações que precisassem ser filmadas com cuidado.

Aí eu vi que precisava brincar de gente grande e montei a tal equipe específica para segunda unidade. Célio dirigia e Bigu operava a câmera, enquanto eu seguia em paralelo filmando as cenas previstas no roteiro. Chegamos a rodar 30 planos no primeiro dia de filmagens (22 da primeira unidade e 8 da segunda). No total, os planos das alucinações foram quase todos rodados por eles e a maioria dos takes de preenchimento também.

Mas mesmo assim, na edição é que se descobre tudo o que o filme precisa. Não consegui fugir disso, por mais que tenha me planejado. Depois da primeira versão do filme montado, reunimos a equipe e apontamos todos os elementos de preenchimento que ainda faltavam, além de mais alguns takes para as alucinações. Acabou que por mais 3 tardes eu ainda saí com os assistentes para gravarmos algumas coberturas, tipo um mês depois dos 8 dias da filmagem principal.

É difícil, não tem fórmula. Mas fico feliz de conseguir sempre produzir todo o material que preciso ao invés de sofrer com truques de edição para encobrir buracos. Depois de toda essa correria, a primeira parte da jornada já estava completa, então. A edição nos 6 meses após as filmagens, no entanto, foi como uma caminhada mais apressada que o habitual. Espero que tenha dado tudo certo. 

Roger Elarrat